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O dia em que o tempo me deu um bom-dia

Outro dia, sem querer, soltei: faz uns quinze anos que isso aconteceu. E parei. Quase pedi desculpas para mim mesmo. Quinze anos? Quando foi que eu...

Redação
Por: Redação Fonte: Secom Acre
01/06/2025 às 10h15
O dia em que o tempo me deu um bom-dia
Foto: Reprodução/Secom Acre

Outro dia, sem querer, soltei: faz uns quinze anos que isso aconteceu. E parei. Quase pedi desculpas para mim mesmo. Quinze anos? Quando foi que eu comecei a lembrar de algo que ocorreu há esse tempo?

Percebi que o tempo não corre. Ele observa. E não avisa que passou. Apenas passa. Começa de mansinho a ganhar espessura. Você sente nas costas, nas fotos esquecidas no drive, nas coisas que já contou mais de uma vez. O tempo está sempre ali, atravessando você.

Calma. Eu sei que você, mais velho do que eu, está dizendo que ainda sou jovem. Eu também sei disso. E é justamente sobre isso. Lidar com a percepção do tempo e seus efeitos ainda é, de certa forma, novidade para mim.

A saudade também virou outra coisa. Deixou de ser conceito e passou a doer nos cantos onde a memória se esconde. A ausência agora tem nome, CPF, trajetos. Não é mais lembrar da casa do avô ou de um brinquedo. É lembrar de quem você foi, do que achou que seria, do que deixou de ser por medo, por pressa, por falta de coragem. E de quem esteve ali e hoje só vive no fundo do pensamento. Virou um sorriso ao sentir um tempero conhecido, ou uma música antes detestada, hoje motivo de consolo.

É aquela risada. Aquele filme. A história que você ouviu mil vezes. Aquela bronca. O cuidado. O conselho dito na hora errada que hoje faria todo sentido.

E então vem essa constatação que ninguém te ensina: a saudade é uma invenção da maturidade. Criança sente falta. Adulto sente saudade.

Você aprende que o mundo não acaba só porque o seu mundo desabou. Ele segue. E talvez isso seja o que mais ensina. Porque tem dias em que você não quer nada. Mas mesmo assim o supermercado abre, o aplicativo notifica, tem gente rindo num vídeo qualquer, criança atravessando a rua. O mundo segue.

A verdade é que a vida não se importa se você está cansado. Ela vai. As pessoas vão, outras vêm, algumas voltam, outras esquecem. E você aprende, aos poucos, que dá pra sobreviver mesmo nos dias que não brilham. Que os velhos erros até se evitam, mas sempre se arruma um jeito novo de tropeçar. E é aí que o tempo, aquele velho conhecido, dá um bom-dia para você. E você responde. Não com entusiasmo. Mas com respeito. Porque agora entende que ele não é inimigo, nem juiz. Só esteve lá. Em todos os seus dias. E vai continuar, mesmo quando você não estiver.

Talvez essa seja a primeira pista de que a gente está envelhecendo. Não é mais sobre contar os dias. É sobre entender que os dias contam você.

* Vinícius Charife é jornalista

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